sábado, 25 de abril de 2015

Ponto de Situação no Futebol Nacional




Faltam 5 jornadas para o fim do campeonato, estamos a um mês do fim das competições nacionais e passaram 8 jornadas desde o meu último ponto de situação sobre o futebol português. 

Volvidas estas 8 jornadas o que temos?

O Penafiel substituiu o R. Quinta pelo Carlos Brito.
Continua em último lugar tendo só ganho um jogo, é a pior defesa do campeonato e a manutenção é já um sonho bem distante, até porque dos 5 jogos 3 serão fora, com o Nacional, Benfica e Porto.

O Gil Vicente conta com zero vitórias e 5 derrotas nestas últimas jornadas, quebrando assim o bom momento que atravessava. Está em penúltimo a 5pts da linha de água. Com 3 deslocações e dois jogos caseiros, Belenenses e Benfica, dificilmente conseguirá a manutenção.

Os quatro lugares acima da linha de água estão já reservados para o Setúbal, Arouca, Académica e Boavista.
O clube de Coimbra voltou a respirar com a entrada do José Viterbo, tendo subido 3 posições e só perdido na deslocação à Luz e Dragão.
O Boavista é uma das boas surpresas do campeonato. O Petit estabilizou a sua equipa no 13ºlugar e está já a 9 pontos dos lugares de descida. 

Depois de duas grandes campanhas, esta época o Estoril desiludiu e está em 12º longe de qualquer luta. O Couceiro deu lugar ao Fabiano Soares e a equipa só venceu 2 dos últimos jogos. Contudo essas vitórias foram nas últimas 2 jornadas o que pode indicar uma subida de rendimento para o resto do campeonato. 

O Moreirense, Marítimo, Nacional, Rio Ave e o Paços de Ferreira estão separados por 3pts, podem ambicionar ainda o 6º lugar mas dificilmente um lugar europeu. 

O Moreirense é outra boa surpresa do campeonato e disputa um lugar no top 10.
O Marítimo trocou o L. Pontes pelo Ivo Vieira e está numa série de 4 jogos sem derrotas. Entretanto eliminou o Porto e marcou presença na final da Taça da Liga. 

O Nacional, Rio Ave e o Paços estão num nível acima e têm ambição do 6º lugar e o sonho do distante lugar europeu.
O Nacional não confirmou o seu bom momento e só venceu 2 dos últimos 8 jogos.
O P. Martins manteve o Rio Ave no bom nível e nos últimos 6 jogos venceu o Benfica e só perdeu com o Porto. Está também nas meias da Taça mas longe do Jamor.
O Paços com o P.Fonseca é também uma das boas surpresas do campeonato, depois da quase despromoção da época passada. Apesar de zero vitórias nos últimos 4 jogos, a equipa está em 7º e com ambição. 

Na luta pela Europa e em 6º lugar está o também surpreendente Belenenses. Apesar da saída do Vidigal, substituído pelo Jorge Simão, os azuis do Restelo ainda sonham com a Europa que está só a 4pts. 

O Rui Vitória mantém o Vitória no 5º lugar e apesar de a equipa já não mostrar a constância do início da época, está perto de assegurar um lugar europeu. Apesar da vitória no Derby do Minho da última jornada, o 4ºlugar está já a 7pts. 

O Braga entretanto já estacionou confortavelmente no 4º posto, estando a 10pts do 3º. A época poderá terminar em beleza para o S.Conceição com a confirmação da presença do Braga no Jamor.

O Sporting de assumido candidato ao título passou a conformado com o 3º lugar. Neste momento está já a 8pts do 2º e a equipa estará já com a final do Jamor na cabeça. Nestes últimos jogos só conseguiu uma vitória convicente, na recepção ao Vitória.
De destacar a afirmação do reforço Ewerton, o regresso do Miguel Lopes à lateral e os 11 golos que colocam o Slimani como o 6º artilheiro do campeonato. 

A luta pelo título está ao rubro entre Benfica e Porto e na próxima jornada há um decisivo Clássico na Luz.
Este jogo traz pressão para ambos os clubes. Ao Porto só interessa a vitória e o Benfica vê, após ter desperdiçado a possibilidade de uma vantagem de 9pts, o Porto com possibilidades de subir à liderança já neste jogo.
O Benfica é o favorito na luta pelo título, tanto pelos 3pts de vantagem, como pela vantagem no confronto directo como pela recepção ao rival azul e branco.

Nas 8 últimas jornadas o Benfica passou a ter o melhor ataque da Liga após ter conseguido marcar 26 golos, ultrapassando o Porto que marcou 17. Nas mesmas jornadas o Porto passou a ser a melhor defesa após só ter consentido 2 golos, ultrapassando o Benfica que sofreu 5.

Após o clássico o Porto terá só um jogo de elevada dificuldade, deslocação ao Restelo. Terminará a época a receber o Penafiel.
O Benfica também só terá um jogo de grande dificuldade, deslocação a Guimarães. Contudo, vendo as dificuldades nos jogos fora, também a ida a Barcelos é de risco. Termina a época na Luz com o Marítimo, o qual também irá enfrentar na final da Taça da Liga. 

Nas últimas jornadas não se confirmou o regresso do Helton à baliza, o Quaresma melhorou, o Casemiro mostrou estar fadado para os jogos mais exigentes e o reforço Hernâni provou ser uma mais valia.
No Benfica pouco mudou. Continua a adaptação e evolução do Samaris e Pizzi. O Jonas confirmou todas a sua classe e qualidade. 

O Jackson continua a liderar a tabela dos melhores marcadores, conta com 17 golos. O Lima e o Jonas aproveitaram a lesão do colombiano e aproximaram-se, contanto com 14 e 16 golos respectivamente. 

Resumindo. Penafiel confirmado como último e o Gil afundou-se. A despromoção deverá estar definida.
O Setúbal confirmou as fragilidades, a Académica e o Arouca subiram de rendimento e o Boavista terminará a época sem sobressaltos.
O Estoril, o Moreirense e o Marítimo mantiveram as suas posições mas o Estoril não confirmou o potencial que lhe adivinhei.
O Nacional não manteve a sua boa forma e juntamente com o Rio Ave e Paços estabilizou no top 9 e afastou-se da Europa.
O Belenenses não quebrou e mantém o 6ºlugar e ambições europeias.
O Guimarães estabilizou no 5º lugar e viu o Braga confirmar o 4º lugar.
O Sporting parou mesmo de olhar para cima mas, ao contrário do que previ, também não terá de olhar para baixo. O Porto confirmou que a luta pelo título seria acesa.

Venha daí o Clássico!

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Em Casa ou Fora, o Mesmo Benfica



Um dos principais assuntos nesta segunda metade da época tem sido o contraste entre a produção da equipa do Benfica nos jogos em casa e fora. 

A tese que mais vejo defendida tem sido baseada em motivos psicológicos. Dentro do clube, e também na boca de alguns adeptos com menor capacidade critica, a tese é a da negação, utilizando palavras como pragmatismo e expressões como “1º lugar”.

Para mim esta discussão tem de ser sobre táctica.
Quando se discutem os 3 grandes muito dificilmente nos lembramos de analisar o adversário.
O Benfica não muda. Tem a sua identidade e filosofia de jogo. O que muda é a postura dos adversários na Luz ou fora desta. 

Os piores resultados, as piores exibições e as mais desapontantes performances da equipa do Benfica foram em que jogos?
 – Liga dos Campeões, jogos com equipas de qualidade igual ou superior ao Braga e também nos jogos fora da Luz.
Não há coincidências. Nós somos iguais mas os adversários são diferentes ou apresentam-se de forma diferente. 

Este Benfica é uma equipa de ataque, de transacções rápidas e de muita correria. É um Benfica que ataca com 8 e em velocidade e que defende em esforço com os que tiverem recuados ou pernas para acompanhar. É um esquema muito bem trabalhado pelo Jorge Jesus, uma filosofia que já está num grau de maturação muito elevado e há um enorme mérito do treinador no modo rotinado e natural como isto funciona.
Contudo o demérito acompanha estes méritos. Não temos plano B e o plano A é fenomenal para jogos de massacre mas débil para jogos mais equilibrados. 

Na luz a maioria das equipas apresenta-se de forma defensiva, com as linhas muito recuadas, sem procurar ter bola e jogando na expectativa de um contra ataque.
É com equipas assim posicionadas que o Benfica se sente mais à vontade.
Nesses jogos o Benfica quase só ataca e é para o momento ofensivo que esta equipa está montada.
Vejamos: Maxi, Eliseu, Samaris, Pizzi, Salvio, Nico, Lima e Jonas. 8 jogadores que gostam de atacar e que são ofensivos nas posições em que se apresentam.

O que acontece quando a equipa que se encolheu na Luz, recebe o Benfica?
As equipas fora do top 4 nacional, fora jogam mais recolhidas mas jogando em casa libertam-se mais, procuram ter bola, disputar o jogo, sobem as linhas e têm mais vontade de jogar futebol.
Isso faz com que o Benfica recue as suas linhas, elimina a constância de momentos ofensivos encarnados, obriga o Benfica a disputar o domínio do meio-campo e afasta os nossos 5 atacantes da área adversária.
O Benfica fica mais desconfortável em campo.

Vejamos: Lima, Jonas, Nico e Salvio, 4 atacantes que se esforçam defensivamente mas que são jogadores puramente de ataque; Pizzi um médio ofensivo lutador mas com evidentes carências defensivas; Samaris um médio com gosto pelo ataque adaptado a 6; Maxi um lateral todo o terreno e com grande tendência para subir pela ala; Eliseu… extremo sem qualidade defensiva e mesmo assim adaptado a lateral.

Portanto para mim está aqui a explicação para a diferença do Benfica na Luz ou fora da Luz: postura do adversário. 

E atenção. Estou longe de criticar a qualidade defensiva da nossa equipa. É impressionante o modo como o Luisão orienta a nossa linha defensiva, como o Salvio e o Nico recuam no terreno e como o Lima ajuda na luta do meio-campo. Nos jogos referidos o Benfica não defende mal, à excepção de erros individuais de um ou outro jogador. Nesses jogos o Benfica tem é muita dificuldade em ter meio-campo, em ter bola e em sair para o ataque. Portanto o adversário está mais próxima da nossa área, tem menos preocupações defensivas, tem mais bola, mais iniciativa de jogo e como tal torna-se mais perigoso, ao contrário de nós. 

Claro que a qualidade dos jogadores também conta para muito. Por isso, apesar de maiores dificuldades, temos conseguido ganhar a maioria dos jogos forasteiros. 

Quando o fosso entre a qualidade dos jogadores já não é assim tão grande a conversa tem sido diferente. A única excepção foi a vitória no Dragão, sobre a qual não me canso de repetir o quanto enorme foi apesar de uma fraca exibição nossa que ainda por cima contou com a incompetência ofensiva do adversário – ineficácia.

Este Domingo na Luz o Porto poderá causar grandes dificuldades ao Benfica. Quando a equipa portista está bem aquele 4-3-3 normalmente superioriza-se à filosófica do Jorge Jesus.
Não sei que Porto teremos mas sei que teremos de correr e lutar muito mais que eles, sei que se jogarmos para o empate, sei que se jogarmos com maior cautela, provavelmente iremos sofrer bastante. 

Se o JJ optar por usar a equipa habitual com a filosofia habitual, teremos de ir para cima deles. Para jogar de forma mais equilibrada e segura seria primeiro necessário alterar alguns jogadores e posicionamentos na equipa, sendo que estrear tal inovação nesta altura do campeonato seja um risco pouco aconselhável.
Nesse caso estaria a falar do Almeida no lugar do Eliseu, estaria a falar num meio-campo diferente, com Samaris acompanhado por Amorim ou Fejsa ou Cristante ou mesmo por 2 destes, abdicando neste último caso de um dos 2 avançados. 

Antevejo que o Jorge Jesus irá jogar com o 11 habitual mas que a equipa irá jogar mais recuada do que o costume na Luz. 

Pessoalmente, condicionado pelas rotinas da equipa tão perto do final do campeonato, apostaria num 11 com Júlio César, Maxi Pereira, Luisão, Jardel, André Almeida, Samaris, Ruben Amorim, Salvio, Nico Gáitan, Lima e Jonas e acima de tudo numa equipa ofensiva, sem receios da derrota e sem pudor em tentar impôr a sua ideia de jogo.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Benfica x Porto



O jogo do ano aproxima-se. A decisão está próxima. A hora da verdade chegou.

O que esperar deste jogo? No que nos diz mais respeito, em caso de vitória, deixam de existir possibilidades de não êxito no final da temporada. Caso o resultado seja o que mais desejamos, 6 pontos à maior (com vantagem no confronto directo) a 4 jornadas do final, terá de representar um passo absolutamente decisivo na conquista do título.

Não obstante, caso o resultado se fique pelo empate, não deixaremos de ter as maiores e melhores possibilidades de sermos campeões, pois não pode ser expectável que o Benfica perca mais do que 3 pontos nas jornadas que ficarão a faltar.

Face a isto, e também ao que tem sido o passado de JJ no Benfica frente a equipas da dimensão do FCP e a momentos de decisão como este, espero um Benfica a viver mais em organização defensiva, procurando explorar a sua forte transição ofensiva, através do poder de condução e definição de Jonas, Gaitan e Pizzi.

Esta não é, como o tenho dito ao longo dos tempos, a ideia de jogo que mais me agrada, bem pelo contrário. Porém, admito, este talvez seja o jogo e o adversário contra quem melhor resulte esta estratégia, por duas ordens de razão:

1 – A forte capacidade do Benfica para jogar em organização defensiva, sem que isso represente um baixar de linhas perigoso e letal contra equipas que saibam viver bem em organização ofensiva como este FCP. JJ tem um colectivo muito bem trabalhado do ponto de vista posicional nesta fase do jogo e a sua ideia ofensiva, não me parece capaz de dividir a partida com um adversário como o FCP. Há ainda a considerar o facto de ao Benfica servirem dois resultados, sendo que ao FCP só a vitória (e pela maior vantagem possível) interessa.

2 – Gostemos ou não do estilo, alguém que consiga observar o FCP com algum distanciamento emocional, não deixará de lhes reconhecer uma boa capacidade para jogar em organização ofensiva. Mais do que a qualidade dos jogadores que eles têm, a ideia colectiva da equipa assenta na posse e na procura de domínio do adversário através dessa mesma. Um adversário mal trabalhado defensivamente e que, por isso, baixe as suas linhas frente ao FCP, dificilmente consegue bons resultados. A nosso favor há a debilidade Portista na transição defensiva. O aspecto defensivo é a maior debilidade do FCP, seja em organização, seja em transição, mas é neste segundo momento que o Benfica mais poderá tirar vantagem, porque também é na transição ofensiva que o Benfica tem a sua maior virtude na fase ofensiva do jogo. A melhor prova disto é o jogo entre ambas as equipas na primeira volta, onde vimos um Porto forte na capacidade de posse e em causar dano através dela, e o Benfica a resolver o jogo em momentos de transição ofensiva. Naturalmente que, desde aí, o FCP evoluiu a sua transição e organização defensivas, mas também não é menos verdade que o Benfica também evoluiu na sua organização defensiva, como provou o jogo com o Sporting nesta segunda volta.

O que não pode acontecer, de forma alguma, é a equipa do Benfica interiorizar que o adversário entrará em campo fragilizado física e emocionalmente por consequência do que se passou esta semana. Acontecendo, será o primeiro passo para o abismo.

terça-feira, 21 de abril de 2015

E ao Intervalo já estavam 5



“Com esta vantagem irá o Porto defender o resultado em Munique? Mas isso não será favorecer o jogo alemão? Isso não será abdicar de, tal como no Dragão, exploro o "Ouro"? Então a melhor solução será arriscar com pressão alta?”

Estas foram as perguntas que deixei após o jogo do Porto no Dragão com o Bayern. 

A qualidade do Bayern de Guardiola é inquestionável, apesar de muitos terem dedicado muito tempo de antena a questioná-la. Apesar do 3-1 no Dragão era muito difícil o Porto não acabar eliminado no Allianz Arena. 

Nestes 5 há um tremendo mérito da equipa Bávara mas claro que também tem de haver algum demérito da equipa do Porto. 

A equipa portista talvez não tenha capacidade para melhor, principalmente sem Alex Sandro e Danilo. Não esquecer que o Ricardo pouco tem sido utilizado e é um jovem em adaptação e que o José Angel nem inscrito está na Champions. 

O Bayern empurrou o Porto para a sua defesa mas a equipa de Lopetegui também não mostrou querer contrariar isso. O Porto entrou com o autocarro e um autocarro de tal forma estacionado que nem tinha possibilidade de tentar criar jogadas de contra ataque. 

Com Reyes e Martins Indi a equipa não conseguiu qualquer profundidade nas laterais e para dizer a verdade o mexicano pareceu-me apresentar-se como um terceiro central com o Quaresma a jogar a lateral direito. Uma coisa é um extremo defender e outra é jogar a defesa direito. 

Lopetegui não quis arriscar com uma pressão alta, que tão bem funcionou no Dragão, e optou por abdicar totalmente da bola e de atacar.
Nem o Porto tem uma equipa para esse estilo de jogo nem o Bayern tem problemas em abrir colectiva e individualmente esse tipo de defesas.

Como é que o Helton continua sem ganhar a titularidade? 

Quando uma equipa abdica totalmente de sua identidade e processos de jogo e se apresenta em campo recheada de adaptações ao adversário, há uma grande probabilidade de os seus jogadores se tornarem meros espectadores do futebol jogado pelo adversário. 

Ao intervalo já estavam 5, imaginem se no ataque do Bayern estivesse o Jonas…
 

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Da estupidez do departamento de marketing do Benfica


A seis dias do jogo que pode e que provavelmente decidirá o campeonato nacional, o Benfica lançou uma campanha em que vende uma bandeira e um cachecol com a inscrição #colinho ao preço de 9 euros para sócios e de 10 euros para não sócios.

Um cachecol a dizer #colinho é só uma das ideias mais estúpidas que me lembro de alguém conseguir materializar num produto de marketing, ainda para mais na altura do ano em que estamos, no contexto em que se insere o jogo do próximo fim-de-semana e nos antecedentes que temos no que toca a perder campeonatos na recta da meta. Se o Benfica não vence este campeonato depois dos seis pontos que teve (com a agravante de poderem ter sido nove pontos não fosse a derrota em Paços de Ferreira) e depois destas manifestações circenses de cachecóis que aludem ao #colinho, teremos direito a 30 anos de merecido gozo por parte dos rivais.

Uma coisa é haver adeptos que "reservam" rotundas e decidem fazer a festa antes do tempo. Sendo um sinal de pouca inteligência, é importante sublinhar que esses adeptos não passam disso mesmo: adeptos. Não são pessoas com cargos diretamente ligados ao Benfica nem com responsabilidades no marketing do clube. Lançar uma campanha como esta tem a sua piada se os resultados desportivos corresponderem. Mas se isto der para o torto...

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Um Olhar sobre a Noite Europeia no Dragão



O Porto ontem conseguiu uma enorme vitória na Liga dos Campeões. É uma vitória histórica para o clube azul e branco e um feito histórico por confirmar em Munique.

O Porto foi melhor mas não há qualquer dúvida que a equipa do Bayern é muito superior à equipa portista. Portanto para tal resultado ser possível não só o mérito do Futebol Clube do Porto tem de ser discutido mas também outros factores como a sorte e o demérito alemão.

Aos 10 minutos já estava 2-0 e isso tem de mexer com qualquer equipa, seja ela a Académica ou o Bayern. Além do impacto negativo na equipa em desvantagem também é necessário relevar o boost de confiança que a equipa que está a vencer recebe.

Aos 10 minutos estava 2-0 e ao intervalo estava 2-1 e muito sinceramente não me recordo se o Porto criou alguma jogada de ataque durante toda a primeira parte.

O Bayern demorou a entrar no jogo e principalmente a recuperar do choque Quaresma. Melhorou com o aproximar do intervalo e reduziu a desvantagem.

Na minha opinião o verdadeiro jogo aconteceu na segunda parte.

Nos segundos 45 minutos assistimos sim a uma boa exibição do Porto. A primeira parte resumiu-se a luta, esforço e muita correria. Na segunda parte apareceu a posse de bola com qualidade, a construção de jogo, a confiança com bola e a serenidade.
Não se pode dizer que o Porto massacrou mas a verdade é que se superiorizou ao Bayern de Munique e isso é um feito.

Numa segunda parte de grande personalidade portista, o 3-1 apareceu com toda a naturalidade e justiça.

Esta vitória do Porto está longe de ter sido conseguida contra um Bayern B. Foi uma grande vitória conseguida contra um Bayern muito desfalcado mas mesmo assim o Bayern.
E que Bayern foi este?

Não estamos a falar de uma equipa que contou com 2 ou 3 ausências mas sim com 6 ou 7 e ainda com dois jogadores a recuperar ritmo e forma física após prolongada paragem por lesão.

Isto não se pode escrever os titulares num papel, analisar o valor individual dos jogadores e concluir quem está melhor ou pior. Muitas vezes quem é melhor não é quem está melhor.
Nunca se pode retirar as rotinas colectivas, o ritmo de jogo e a forma física na análise a um 11 titular.

Este Bayern apareceu no Dragão forçado a uma alteração táctica, com grandes jogadores de inicio mas sem rotinas colectivas apuradas, com dois jogadores no meio-campo longe da sua melhor forma física e sem banco para poder fazer mudar o rumo dos acontecimentos.

O meio-campo é a zona essencial em qualquer equipa de Pep Guardiola. É o sector que equilibra a equipa defensivamente, que envolve os defesas no início da construção de jogo, que transporta a bola até ao ataque, que cria os desequilíbrios ofensivos e que apoia os atacantes. O Thiago e o Lahm não se apresentaram em condições para contrariar a intensidade do meio-campo portista e muito menos para se juntarem ao Gotze, Muller e Lewandowski no ataque bávaro, o que levou ao isolamento de cada um destes três atacantes.
A profundidade alemã foi inexistente, o esperado perante mudança táctica que recuou os alas para as laterais e perante a inexistência de qualquer extremo no 11 bávaro, que costuma contar com Robben e Ribery.


O Porto apareceu muito melhor fisicamente e Lopetegui teve o mérito de explorar a diferença entre a condição física das duas equipas.

A este nível os nomes cada vez contam menos. Mas a este nível também nenhum resultado é definitivo.

Será assim tão difícil imaginar um 2-0 no Allianz Arena? E com o regresso de jogadores como o Schweinsteiger e o Ribery? E com a ausência do Alex Sandro e do Danilo?

Ontem foi uma enorme vitória portista mas a eliminatória está longe de se encontrar decidida.
Com esta vantagem irá o Porto defender o resultado em Munique? Mas isso não será favorecer o jogo alemão? Isso não será abdicar de, tal como no Dragão, exploro o "Ouro"? Então a melhor solução será arriscar com pressão alta?
As meias-finais e o fazer história ainda estão longe para a equipa de Lopetegui.

Olhando para dentro.
A sorte sorriu ao Porto ao colocar a recepção à Académica entre as duas mãos da eliminatória contra o Bayern. Depois do jogo de ontem muito dificilmente iremos ver uma equipa portista preparada para um jogo nacional de maior exigência.


Fica um aviso para o jogo da Luz. Um Porto que apareça em Lisboa a conseguir colocar esta intensidade no jogo, a conseguir pressionar alto deste modo, com o Jackson em forma e o Quaresma neste momento exibicional, vai exigir o melhor Benfica, tanto individualmente como colectivamente e como mentalmente.

Bem, 48 horas para o Restelo.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Com Jesus, Jonas é mais herói


Jorge Jesus tem sido várias vezes criticado pela forma como desaproveita jogadores ou aposta cegamente em alguns que não dão garantias. Se nalguns casos, a crítica é justa (Eliseu é o exemplo maior de um jogador sem qualidade para ser titular no nosso clube), noutras parece-me haver uma certa injustiça e/ou desconhecimento sobre o jogo - não tem sido raro, nestes 6 anos, o técnico ir preparando atletas para o futuro, como são claramente os casos de Pizzi (que agora vem fazendo boas prestações no miolo, embora ainda esteja longe da eficácia e conhecimento das ideias do técnico que Enzo tinha), de Cristante ou do próprio Jonathan, que promete vir a ser um caso sério.

Porém, quase ninguém lhe faz justiça quando ocorre o contrário: ou seja, quando o técnico é responsável por melhorar consideravelmente a prestação de um jogador. Lembro-me de Jonas, penso na extraordinária época que tem feito e, sabendo obviamente que é um jogador que já tem uma carreira consolidada e um talento que é indesmentível, não é possível não atribuir uma parte substancial do sucesso de Jonas no Benfica à competência do técnico, que entendeu exactamente onde o brasileiro poderia fazer a diferença, dando-lhe a liberdade de movimento que ele necessita para ser o Indiana Jonas que todos adoramos.

A crítica deve ser assertiva, construtiva, coerente, sólida, honesta. Tanto os críticos de Jesus como os seus defensores devem procurar evitar amores desmedidos ou rancores inconciliáveis na hora de olhar para a valia que o técnico indiscutivelmente tem. Da minha parte, que o tenho defendido (embora não veja nele um Deus cuja ausência do clube desmoronará todo o edifício de um clube com demasiada glória para depender de um único ser), agradeço-lhe a qualidade que teve em perceber exactamente quem é Jonas e como lhe potenciar o tremendo talento que tem. 

Ganha o Benfica, ganha o Jonas, ganha o Jesus, Ganhamos nós momentos sublimes de futebol.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Tiago Martins, o novo Jonas!

Anunciamos a contratação, a custo zero (depois do Jonas, achamos que a melhor forma de angariar bons talentos é não pagando nada por eles), do escriba Tiago Martins, do «Bola na Rede». Com esta aquisição, passamos a ser 9. Temos ainda em vista, sempre fruto de uma prospecção de excelência, mais duas contratações na próxima semana. Pela qualidade dos escribas e porque queremos formar um 11 do Ontem para fazer futeboladas. 

Boa sorte, Tiago! Traz uma boa dose de paciência e um saco largo para meteres os insultos, que isto aqui é sempre a aviar!

terça-feira, 31 de março de 2015

Seleccção Nacional na Luz e a caminho do Cabo Verde



Bem, hoje joga Portugal. 

Portanto hoje ainda tenho o botão selecção accionado. Felizmente isto dá para ter vários botões ligados ao mesmo tempo. A partir de amanhã já foco somente no Benfica que a todos nos une. 

O que dizer da Selecção… 

Jogo no Estádio da Luz, casa cheia, ambiente fantástico. Só podia. 

Coentrão a marcar, Matic a brilhar… mais do mesmo. 

O Fernando Santos chegou agora. Os resultados do seu trabalho ainda estão longe de ser aquilo que todos queremos. Nota-se que há muito para mudar, muito para afinar e muito para trabalhar. Vai levar tempo, é um processo longo. Tem mais um ano para o fazer. 

A Selecção joga pouco. Joga o suficiente para ir ganhando com dificuldade cada jogo que vai fazendo. E sinceramente, neste processo de transição, é crucial conseguir ganhar os jogos, somar os 3 pontos, garantir o apuramento e ganhar o grupo. Mas isto só nos leva ao Europeu. Há toda uma outra parte que precisa evoluir para não irmos somente fazer turismo a França. 

O Fernando Santos chegou e fez logo o que tinha de fazer: abrir o grupo fechado que esta selecção se tinha tornado.
O Paulo Bento tem as suas qualidades. Conseguiu ter um impacto muito positivo quando chegou a seleccionador. Contudo não soube renovar a sua imagem e mês após mês foi cada vez mais se fechando num conservadorismo de grupo e táctico que não pode existir numa Selecção Nacional. 

O FS soube acabar com este conservadorismo. Reabilitou jogadores de qualidade para a selecção, trouxe novas ideias de jogo e percebe-se que está à procura de algo.
É importante que aos poucos não comece a cair no erro do seu antecessor. É importante que não comece a fechar a selecção a um grupo da sua confiança e a uma ideia única. 

O jogo com a Sérvia agradou pelo resultado mas deixou claro que a selecção está ainda longe de encontrar um novo ritmo e identidade. 

O meio-campo é onde estamos melhor servidos. Temos o Tiago e o Moutinho, temos também o William Carvalho e o André Gomes. E ainda temos outras soluções como o Amorim, Pizzi, Adrien, João Mário, André André, Tiba, Bernardo Silva, Ruben Neves, entre outros.
Mais importante que os nomes ou que a qualidade individual, é encontrar um equilíbrio e uma heterogeneidade para o meio-campo. É preciso saber expandir o meio-campo. É preciso potenciá-lo no momento da posse de bola. Basicamente, o oposto do que acontecia com o Paulo Bento. Tenho então alguma expectativa na inclusão do William e/ou do Pizzi e/ou do Bernardo Silva.

Sem nenhuma exibição de encher o olho, foi no centro do terreno que tivemos os melhores jogadores: tanto o Moutinho e o Tiago pela qualidade de jogo como o Coentrão pela presença nas jogadas.  

A baliza não está mal entregue mas ainda gostava de ver o que o Anthony Lopes pode fazer. O Beto é que não. 

No início deu para perceber a chamada do Bosingwa mas… já chega. 

Na esquerda… Há Coentrão e há Antunes. Há também o Sílvio e o André Almeida. Há ainda outros jogadores como por exemplo o Tiago Gomes ou o Tiago Pinto. O Eliseu é que não, por favor. 

No centro da defesa há novamente Ricardo Carvalho. Faz logo toda a diferença. Infelizmente saiu antes do minuto 20 por lesão. Até aí estava a ser o melhor da selecção. Além do golo esteve impecável tanto no seu papel de central como no de corrector de borradas do Bruno Alves. 
Pepe e Fonte são apostas seguras. Falta explorar outras possibilidades, como o Paulo Oliveira. O Bruno Alves no máximo como quarto central e nesta altura já estaria bem melhor fora das observações do seleccionador. 

Nas três peças ofensivas foi onde vi menos qualidade. É no ataque que se nota uma maior deficiência na selecção. Ainda é tudo muito experimentas e individualmente as coisas não estão a funcionar.
Deus me livre estar a pedir a inclusão do Almeida ou do Éder… mas algo tem de ser criado.
Neste jogo o Danny foi inexistente, como normalmente é. O Nani foi esforçado, participativo mas ineficaz. O Cristiano foi um apagão com dois ou três pequenos momentos de qualidade. Não se pode ter um jogador com a qualidade do CR afastado do jogo criativo da equipa. Um jogador como o Cristiano tem de ter uma participação constantemente activa no jogo da Selecção. 

A Selecção Nacional é a Selecção de Portugal. Nunca poderia ter sido a Selecção do Paulo Bento e não pode ser a Selecção do Santos nem a Selecção do Cristiano. Já passou da hora de a braçadeira de capitão ser entregue a quem a merece. Já passou da hora da responsabilidade das bolas paradas ser colocada em quem tem qualidade para a ter. 

Tenho reparado que apesar do meio-campo com 3 elementos, o jogo da selecção passa muito pelos ataques rápidos e contra-ataques. Jogar contra uma Alemanha assim até percebo e acho que pode resultar. É uma forma eficaz de explorar os pontos fortes do Cristiano, a velocidade dos avançados e laterais da selecção e a subida da defesa adversária. Mas jogar assim contra equipas do nosso nível ou de um nível inferior já me parece um desperdício de talento e uma forma ineficaz de enfrentar quem não se expõe ao risco.
A presença do Coentrão no meio-campo veio acentuar esta ideia de jogo. 

Posso dizer que estou agradado com a selecção mas a partir de agora a exigência irá aumentar jogo após jogo. É crucial começar a ver-se mais.

Estou mais entusiasmado hoje com os convocados para o jogo do que estava no jogo anterior. Gosto desta politica de convocar só nacionais e de promoção de jovens dos sub-21 para a A. Espero que se queira tirar proveitos disto e que seja uma medida estratégica e com continuidade e não só uma excepção no percurso.

Portugal tem qualidade, talento e principalmente competência para sonhar mais alto. Só os “Srs. Só somos 10M” é que não conseguem ver isso. 

Quando uma selecção joga, em campo não estão jogadores individuais nem uma equipa colectiva mas sim um país. Todos os nomes são secundários, o que realmente importa são as 11 camisolas, enquanto símbolo nacional, que estão a disputar o jogo.
É esta noção que se tem perdido, tanto entre os jogadores como entre os paineleiros e também entre os adeptos.

terça-feira, 24 de março de 2015

A substituição na derrota de Vila do Conde



Muito tenho ouvido sobre a ambição demonstrada pelo treinador do Benfica no final do jogo contra o Rio Ave.

O Benfica estava com 10 jogadores, o jogo estava empatado e próximo do fim e o adversário estava a jogar de forma organizada e a muito bom nível.

Dizem que no Benfica se joga sempre para ganhar. Dizem que o Benfica tem e tinha de procurar a vitória. Concordo, apesar de isso até ir contra as palavras de Jorge Jesus após o jogo com o Paços.

O que não entendo é a justificação para, naquelas condições, se jogar com 4 defesas, 4 atacantes e somente um médio que ainda por cima está agora a voltar à competição depois de uma longa paragem. Desde quando é que a melhor maneira de procurar o golo é encher o ataque com avançados? Desde quando é que a melhor forma de conseguir vencer o jogo é abdicar de defesas e/ou de médios em prol de ter mais avançados?

Claro que é importante ter gente na área para o último passe e para a finalização. Mas é menos importante ter gente que permita à equipa conseguir ter a bola? Mas é menos importante ter gente que consiga construir as jogadas?

Querem-me convencer que tirar o Pizzi para colocar o Lisandro, deixando a equipa só com o Amorim no meio-campo, dois extremos abertos e dois avançados, era a substituição óbvia de uma equipa quer queria ganhar.

Não conseguem. Via a equipa com maior capacidade de vencer o jogo, e ainda com diminuição de risco de sofrer o segundo golo, mantendo o Pizzi com o Ruben no meio campo e retirando um dos avançados para a entrada do Lisandro.

Aliás, até acharia melhor uma situação alternativa de três defesas, mantendo os 4 atacantes. Saindo o Eliseu, que estava já há muito a implorar para sair, entrando o Lisandro e ficando o Maxi ou o Ruben mais próximos dos centrais.

Abdicar do meio-campo para mim nunca é solução. Esta época tem sido uma constante para Jorge Jesus e só resultou uma vez, na Luz com o Mónaco, jogo em que o treinador encarnado optou por partir o jogo e ganhou aquela equipa que teve melhores executantes no ataque.

A VIDA GLORIOSA DA MARIA PAPOILA - O Nascimento



Foi no Estádio da Luz, imediatamente antes de um golo do Benfica, que José recebeu a notícia, embora tivesse demorado algum tempo a assimilar o que a esposa lhe estava a dizer, uma vez que estava empenhado em perceber se a bola, que corria perigosamente em direcção à baliza adversária, ia entrar ou não.

- José...

- Espera, filha, agora não, que o Gaitán está doido! - e já José flectia as pernas no betão do Piso 3, como se os joelhos também se estivessem preparando para a festa.

- José, olha para mim! - Maria agarrou-lhe no queixo, virou-o do relvado para a sua cara, os olhos de José ainda com imagens da bola em movimento, e disse:

- Estou grávida!

Mal a palavra ecoou nas bancadas, em todo o Estádio ouviu-se um estrondoso ecoar: goooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooolo!
O José e a Maria olharam os dois para a bancada, depois para a baliza, depois para a bola, depois para os jogadores, depois um para o outro e, abraçados e aos saltos, comemoraram juntos os dois golos: um do Benfica, o outro só deles. Estavam inaugurados o marcador e a vida.

Nos 9 meses que se seguiriam a esse momento, José e Maria veriam mais 27 vezes a equipa de futebol, 5 a de Andebol, 10 a de Basquetebol, iriam 13 vezes ver o Benfica fora, entre pavilhões e estádios dos adversários - tudo isto sabiam e calculavam porque religiosamente guardavam os bilhetes e um calendário que lhes contava o histórico da aventura gloriosa.

Os fins-de-semana não tinham segredos: na Sexta preparar os jogos que queriam ver, cozinhar repasto no caso de irem acompanhar o clube para fora de Lisboa, e ter sempre lavados, engomadinhos e cheirosos os cachecóis, as bandeiras, os barretes, as tarjas, as t-shirts e o galhardete da sorte (de um Benfica-Milan que o Pai de José lhe trouxera de Viena em 90 - recordação de um jogo azarado que José, sempre optimista, transformara no seu amuleto muito especial). Depois era seguir viagem, colocar os cachecóis apertados nos vidros do carro, acenar aos benfiquistas pelas estradas do país, chegar e apoiar, gritar e cantar pelo Benfica; no fim, com a vitória (quase sempre) ou com a derrota (quase nunca) nos bolsos, voltar a casa e dormir umas horas, que no outro dia há sempre mais vida à espera.

Passaram-se assim as semanas, umas atrás das outras - aos Sábados e Domingos, só dava Benfica; durante a semana, também, embora houvesse um emprego que havia de ser cumprido de forma a poder acompanhar o Benfica para aqui e para ali, para ali e para aqui, e um rebento à espera dentro da barriga de Maria que havia de ter de comer, mal nascesse para o mundo.

E o mundo está precisamente hoje à espera que Maria dê à Luz mais um benfiquista - ou será uma benfiquista? Não sabemos. Nem nós nem os Pais, que decidiram que a melhor prenda que podiam ter era a surpresa de só saberem se era menino ou menina quando o bebé desatasse aos berros de espanto pela vida. Por falar em berros, onde anda José, que não está aqui a acompanhar a extraordinária sessão vocal de Maria, que mais parece cantora de ópera?

Saímos da sala de parto, abrimos a porta, percorremos o corredor, cruzamo-nos com dois enfermeiros, um doente na maca junto à parede lateral, entramos na casa-de-banho. Eis José, em suores frios, de cabeça enfiada nos joelhos, em rezas desconexas, em cânticos estranhos, agarrado ao galhardete do Benfica. Sopramos-lhe ao ouvido:

- Está quase. Vai ter com a Maria, Campeão!

Apesar de não ter a capacidade de ouvir os apelos literários do narrador, José parece que ganhou forças inesperadas e já se dirigiu para junto de Maria. Menos mal, que a gritaria lá dentro está impossível. É agora o tempo do nosso herói ser herói e ajudar à grande aventura do bebé glorioso desde as sombrias marés da fecundação até aos ventos fortes da existência. Até ao limite da superação e da glória. Até à glorio...

- Já está!

Sem tempo para mais dissertações, o grito foi dado! Primeiro do bebé, depois do Pai José! A Mãe só sorri, entre o cansaço, o desfalecimento e a mais pura alegria. O Pai só diz, como se estivesse relatando algum golo:

- Já está! Já lá mo-ra! Já está! Já lá mora!

E anda nisto há um minuto, desvairado às correrias pelo quarto, o bebé ainda nas mãos do médico, a Mãe agora gargalhando de loucura por ver a loucura do José, a cara do bebé incrédula perante tudo aquilo, mas talvez já com um esgar de sorriso na cara, antevendo futuras comemorações. O corpo todo em sangue, de um vermelho-vida, gloriosa vida, sangue de vida, sangue à Benfica.

Maria pede que lhe digam o sexo do bebé. José tapa a boca do médico, quer ser ele a dizer. Faz um compasso de espera, olha para Maria, sorri, olha para o bebé, (parece que está a preparar a marcação de um livre directo), dá uma festinha no rebento, olha para Maria, e cheio de ternura nos olhos, no coração e na alma, diz:

- É uma menina, minha querida. É uma menina benfiquista.

A Mãe recebe a menina nos braços, já esquecida das dores, dos gritos, das lamúrias e dos ataques de fúria. O bebé acalmou-lhe o corpo todo. A alegria inundou os lugares do medo, espalhou-se em torrente larga pelas veias, pelos sulcos da alma, pelos rios do cérebro, pela correnteza dos olhos. Maria chora de uma felicidade nunca antes sentida, como se repetisse a primeira felicidade do primeiro ser na Terra. Só amor, amor em forma e fórmula pura. Amor sem mais nada: amor amor.

José está comovido a olhar as duas benfiquistas abraçadas num só abraço; pensa que vai sentir muitas vezes a falta daquele momento que agora está a acontecer. De repente, já imagina a filha e a mãe no Estádio, a comemorar golos; a mãe e a filha na praia, rindo, jogando às cartas, cantando no carro, despedindo-se no primeiro dia de faculdade. Poderia ficar assim uma vida inteira e ainda mais um bocadinho, mas lembrou-se agora de que tem de avisar o amigo que está no Estádio da Luz à espera para inscrever o bebé como sócio do Sport Lisboa e Benfica.

- António, já podes inscrever a miúda! VIVÓ BENFICA!

E foi assim que, às 19:04 deste dia que é um dia cheio de mística, o Benfica viu nascer mais uma associada e o Hospital da Luz assistiu ao vivo ao nascimento de mais um membro da nossa família. Vimos, de perto, o primeiro choro (ou o primeiro grito de golo?) do primeiro minuto de vida de Maria Papoila. Maria, da parte da Mãe; Papoila, da parte do Glorioso.


domingo, 22 de março de 2015

Tiros nos pés


Diz-se que cada jogo fora da Luz é, para este Benfica, sinónimo de sofrimento. E é verdade. Mas sem motivo aparente. As cadeiras verdes da bancada central do estádio dos Arcos pintaram-se do mais lindo dos encarnados, de um vermelho-Benfica que transformou aquele terreno de jogo num mini Estádio da Luz. O Benfica jogou fora? O Benfica raramente joga fora. Não há desculpas.

A forma como o Benfica perdeu este jogo deveria entrar para os compêndios da gestão de uma equipa superior durante os 90 minutos de um jogo. O encontro dividiu-se em dois momentos: o primeiro, até ao golo do empate do Rio Ave, em que o Benfica tinha de ganhar o jogo; e um segundo momento, após a expulsão de Luisão, em que era fundamental não perder. Pelo meio, um limbo de incerteza em que era possível ganhar, não seria dramático empatar e era fundamental não perder. E, pasme-se caro adepto do Benfica, mas a verdade é que não soubemos gerir nenhum dos momentos do jogo. Fomos absolutamente incompetentes na tarefa de matar o jogo quando o Rio Ave se encontrava encostado às cordas e sucumbimos à pressão de não poder perder a partida nos minutos finais. O Benfica, desta vez, não mostrou estofo de campeão.

Mais que a forma como perdeu, preocupa-me a forma como o Benfica não conseguiu ganhar o jogo. Desde o começo do segundo tempo até ao golo do Rio Ave, o Benfica teve os vila-condenses encostados às cordas. Mesmo não fazendo uma pressão avassaladora (nem perto, aliás, jogámos 90 minutos a passo) era evidente que o Benfica estava por cima e ficava no ar a ideia de que se o Benfica quisesse colocar o pé no acelerador o jogo ficaria rapidamente resolvido. Mas o Benfica não quis (ou não soube) e para grande espanto meu, este Benfica a jogar a passo, sem provas europeias a meio da semana para desgastar fisicamente os jogadores, viu-se fisicamente nas lonas a partir de pouco mais de meio da segunda parte. Incompreensível.

Mais incompreensível se torna a incapacidade de Jorge Jesus em ler o jogo. O Rio Ave esgota as substituições antes dos 60 minutos (!), altura em que o Benfica ainda tinha três alterações por fazer. Jesus podia ter mexido na equipa de modo a tentar matar o jogo. Podia ter reforçado o meio-campo na altura em que o Rio Ave mostrava sinais de crescimento (nomeadamente após a entrada de Diego Lopes em campo). Podia ter substituído alguns jogadores em claro subrendimento físico, com dificuldades em acompanhar o ritmo de jogo (nomeadamente os inenarráveis Eliseu e Samaris). Mas não. Deixou andar, andar, andar até acontecer aquilo que não queríamos que acontecesse. Jesus foi incapaz de antecipar aquilo que parecia cada vez mais provável com o adiantar o relógio: o golo do Rio Ave. E só fez a primeira alteração a 15 minutos do fim, já depois do primeiro golo vila-condense. O Benfica perdeu por incompetência própria, ponto final. Jogadores incapazes de matar o jogo e treinador incompetente ao ponto de não saber ler a partida.

De Vila do Conde sobram sinais de preocupação em excesso. A defesa tremeu que nem varas verdes tanto em lances de bola parada como em situações de bola corrida. Jardel e Luisão viram-se em trabalhos perante uma frente ofensiva que nem sequer precisou de ser muito competente ou de estar particularmente inspirada. Eliseu mostrou neste jogo praticamente todos os defeitos que lhe vêm sendo apontados desde o início da época. Samaris, como de costume, errou dezenas de passes, fossem eles curtos ou longos, fáceis ou difíceis, estando constantemente mal posicionado e distribuindo cacetada a torto e a direito sem qualquer critério. Lima e Jonas enganaram-se e compareceram na Póvoa de Varzim uma vez que em Vila do Conde não foram vistos (mentira, Lima foi visto ao minuto 80, quando a 4 metros da baliza não conseguiu acertar num rectângulo que mede 7,32 metros de comprimento). E Jesus, claro, a brindar-nos com um chorrilho de disparates numa conferência de imprensa digna para quem gosta de comer gelados com a testa (e temos adeptos que os comem assim).

Sobram 8 jornadas nesta medíocre Liga NOS. Cinco delas serão disputadas em casa, quatro das quais contra equipas que estão na segunda metade da tabela. Fora, o Benfica joga contra Belenenses, Gil Vicente (seguramente ambos os jogos "em casa" dado o massivo apoio da onda vermelha) e Guimarães (em jornada que pode dar o título). Não há desculpas. Não queiram ficar conhecidos como a equipa que à partida para a segunda volta poderia ter cavado um fosso pontual de 9 pontos para o FC Porto e que não o fez por incompetência própria.